🏥 Diretrizes de Atenção

Ministério da Saúde - 2013 Pessoa com Síndrome de Down

📋 Apresentação

Ministério da Saúde - Secretaria de Atenção à Saúde

Departamento de Ações Programáticas Estratégicas

1ª Edição - 1ª Reimpressão 2013

Tiragem: 50.000 exemplares

As Diretrizes de Atenção à Pessoa com Síndrome de Down foram elaboradas com base em buscas no sistema PubMed, SciELO e no Cochrane Database of Systematic Reviews, utilizando como palavras-chave: "Down Syndrome", "Síndrome de Down", "Trisomy 21", "Trissomia do Cromossomo 21" e "Growth", "Desarrollo", "Crescimento".

Os artigos revistos foram publicados no período de 1975 a 2011, além dos relatos históricos de Langdon Down e Jerome Lejeune. A busca foi limitada às línguas inglesa, espanhola e portuguesa. Os dados foram analisados por um grupo de especialistas que discutiu os resultados e elaborou estas diretrizes.

🎯 Objetivo

O objetivo desta diretriz é oferecer orientações às equipes multiprofissionais para o cuidado à saúde da pessoa com síndrome de Down, nos diferentes pontos de atenção da rede de serviço ao longo do seu ciclo vital.

📖 3. Introdução

A Síndrome de Down (SD) ou trissomia do 21 é uma condição humana geneticamente determinada, é a alteração cromossômica (cromossomopatia) mais comum em humanos e a principal causa de deficiência intelectual na população.

💡 Conceito Importante

A SD é um modo de estar no mundo que demonstra a diversidade humana. A presença do cromossomo 21 extra na constituição genética determina características físicas específicas e atraso no desenvolvimento.

Sabe-se que as pessoas com SD quando atendidas e estimuladas adequadamente, têm potencial para uma vida saudável e plena inclusão social. No Brasil nasce uma criança com SD a cada 600 e 800 nascimentos, independente de etnia, gênero ou classe social.

3.1 Histórico

1866

John Langdon Down

Primeira descrição clínica pelo médico pediatra inglês que trabalhou no Hospital John Hopkins em Londres.

1959

Lejeune e Colaboradores

Demonstraram a presença do cromossomo 21 extra nas pessoas com SD.

Século XX

Aumento da Expectativa de Vida

A expectativa de vida aumentou consideravelmente devido aos progressos na área da saúde, principalmente da cirurgia cardíaca.

⚠️ Terminologia Adequada

O termo "mongolismo" deve ser evitado devido à conotação pejorativa. Recomendamos ainda evitar a palavra "portador", pois SD não é algo que se leva junto a si, mas sim é uma condição de vida. Nos referimos a pessoa com SD.

📊 4. Classificação para a Síndrome de Down

4.1 CID-10

Na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) a SD recebe o código Q-90. Por estar classificada no capítulo Q00-Q99 das malformações, deformidades e anomalias cromossômicas.

Código Descrição
Q 90.0 Síndrome de Down, trissomia do 21, por não disjunção meiótica
Q 90.1 Síndrome de Down, trissomia do 21, mosaicismo por não disjunção mitótica
Q 90.2 Síndrome de Down, trissomia 21, translocação
Q 90.9 Síndrome de Down, não específica

4.2 Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF)

A CIF faz parte do conjunto de classificações da Organização Mundial de Saúde e foi publicada em 1980 e revisada em 2001, sendo no mesmo ano traduzida e validada para a língua portuguesa.

A CIF é complementar à Classificação Internacional de Doenças (CID). Enquanto a CID representa exclusivamente a patologia principal e associações, que compõem o diagnóstico clínico de uma pessoa, a CIF descreve a saúde e os estados relacionados com a saúde.

🏥 Domínio 1

Função e Estrutura do Corpo

Baseada no conjunto de dados assim obtidos a CIF trabalha com o conceito de funcionalidade e incapacidades.

🤝 Domínio 2

Atividade e Participação

Entendendo funcionalidade como as funções do corpo, suas atividades e participação e incapacidade suas deficiência, limitações e restrição.

✅ Recomendação

Esta diretriz sugere fortemente o uso da CIF para avaliação contínua de acompanhamento clínico na SD, que faz um deslocamento paradigmático do eixo da doença para o eixo da saúde.

🔍 5. Diagnóstico

5.1 Diagnóstico Clínico

O diagnóstico clínico de SD baseia-se no reconhecimento de características físicas. Quanto mais características específicas da SD forem identificadas, aumenta-se a segurança do diagnóstico clínico.

⚠️ Importante

Nem todas essas características precisam estar presentes para se fazer o diagnóstico clínico de SD. Da mesma forma, a presença isolada de uma dessas características não configura o diagnóstico, visto que 5% da população podem apresentar algum desses sinais.

Características Fenotípicas da SD

👁️ Olhos: Epicanto, fenda palpebral oblíqua, sinófris
👃 Nariz: Ponte nasal plana, nariz pequeno
👄 Boca: Palato alto, hipodontia, protusão lingual
🧠 Cabeça: Braquicefalia, cabelo fino e liso
👂 Orelha: Pequena com lobo delicado, implantação baixa
🦴 Pescoço: Excesso de tecido adiposo no dorso
❤️ Tórax: Cardiopatia
🤲 Mãos: Prega palmar única, clinodactilia do 5º dedo
🦶 Pés: Distância entre 1º e 2º dedo
💪 Tônus: Hipotonia, frouxidão ligamentar

5.2 Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico laboratorial da Síndrome de Down se faz através da análise genética denominada cariótipo. O Cariograma ou cariótipo é a representação do conjunto de cromossomos presentes no núcleo celular de um indivíduo.

Tipo Ocorrência Descrição no Cariótipo
Trissomia Simples 95% dos casos 47, XX+21 (feminino) / 47, XY+21 (masculino)
Translocação 3-4% dos casos 46, XX, t(14;21)(14q21q) / 46, XY, t(14;21)(14q21q)
Mosaico 1-2% dos casos Duas linhagens celulares (46 e 47 cromossomos)

📝 Nota Importante

O cariótipo não é obrigatório para o diagnóstico da SD, mas é fundamental para orientar o aconselhamento genético da família. O resultado do cariótipo (genótipo) não determina as características físicas (fenótipo) e o desenvolvimento da pessoa com SD.

Patologias Associadas à SD

Sistema Patologia Prevalência
Aparelho da Visão Catarata 15%
Aparelho da Visão Pseudo-estenose do ducto lacrimal 85%
Aparelho da Visão Vício de refração 50%
Aparelho Auditivo Perda auditiva 75%
Aparelho Auditivo Otite de repetição 50-70%
Sistema Cardiovascular CIA, CIV, DSAV 40-50%
Sistema Digestório Atresia de esôfago 12%
Sistema Digestório Doença Celíaca 5%
Sistema Endócrino Hipotireoidismo 4-18%
Sistema Locomotor Instabilidade das articulações 100%
Sistema Hematológico Leucemia 1%

📢 6. Momento da Notícia

Ao nascimento de uma criança com SD, as dúvidas, incertezas e inseguranças são muitas, tanto no que tange à saúde da criança como sobre o seu potencial de desenvolvimento imediato quanto às possibilidades de autonomia futura e qualidade de vida.

💡 Diretrizes para Comunicação

  1. A comunicação quanto à suspeita diagnóstica deve ser feita quando sinais e sintomas característicos sejam identificados por mais de um membro da equipe
  2. A comunicação à mãe deve ser feita preferencialmente na presença do pai, ou na sua ausência, de outro membro da família
  3. Antes da notícia é importante que a mãe e o pai tenham tido a oportunidade de ver, acariciar e amamentar o recém-nascido
  4. O local deve ser reservado e protegido de interrupções
  5. O pediatra deve ter tempo disponível para comunicar o diagnóstico
  6. Durante o exame físico, mostrar para os pais quais as características fenotípicas
  7. Recomenda-se que desde o primeiro contato, parabenizar os pais, chamar o bebê e os pais pelos respectivos nomes
  8. As informações, ainda na maternidade, devem ser apenas as essenciais

✅ Mensagem Importante

Enfatizar que o cuidado com o bebê e com a criança será compartilhado entre a família e a equipe multiprofissional, e que a família não estará sozinha e sem apoio neste processo.

🧬 7. Aconselhamento Genético

O aconselhamento genético é um procedimento relacionado à especialidade de genética médica/clínica e se refere a todo o processo que envolve o atendimento de uma pessoa ou família sob suspeita de uma desordem geneticamente determinada.

📋 Objetivos do AG

  • Compreender os fatos médicos, incluindo o diagnóstico
  • Apreciar o modo como a hereditariedade contribui para a doença
  • Entender as alternativas para lidar com o risco de recorrência
  • Escolher o curso de ação apropriado
  • Ajustar-se da melhor maneira possível à situação

👥 Quem Realiza

No caso do AG para famílias com uma pessoa com SD, este processo é muitas vezes realizado pelo pediatra, médico assistente ou equipe multi e interdisciplinar, que deverá estar apto para realizar o aconselhamento dentro das normas estabelecidas pela comunidade médica.

🏥 8. Atenção à Saúde por Ciclo de Vida

Recomenda-se que o cuidado com a saúde da pessoa com SD seja norteado pelas políticas públicas do Ministério da Saúde e que utilize os pressupostos teóricos da clínica ampliada, da integralidade e do cuidado compartilhado.

👶 8.1 Cuidado com a Saúde do Lactente (0 a 2 anos)

O cuidado com a saúde da criança com SD inicialmente deve estar focado no apoio e informação à família, no diagnóstico das patologias associadas. Após esta fase inicial a terapêutica inclui a estimulação global, imunização, estímulo ao aleitamento materno e manutenção da saúde com acompanhamento periódico.

Exames Complementares Necessários:

⚠️ Atenção Especial

A hipotonia muscular está presente em 100% dos recém-natos com SD, tendendo a diminuir com a idade. A presença de hipotonia altera o desenvolvimento da criança atrasando a aquisição das competências motoras.

💉 Vacinação

O calendário de vacinação segue o Programa Nacional de Imunização, incluindo vacinas de anti-Varicela aos 12 meses com reforço aos 4 anos e Hepatite A também aos 12 meses com reforço aos 18 meses.

🧒 8.2 Cuidado com a Saúde da Criança (2 a 10 anos)

O cuidado deve estar focado na manutenção de um estilo de vida saudável (alimentação, higiene do sono e prática de exercícios), no desenvolvimento de autonomia para as atividades de vida diárias, auto-cuidado, socialização, aquisição de habilidades sociais e escolaridade.

Acompanhamento Necessário:

  • Exames: Hemograma, TSH e hormônios tireoidianos (anual)
  • Avaliações: Acuidade visual e auditiva (anual)
  • Odontológico: Periodicidade anual
  • Atenção: Distúrbios emocionais/psiquiátricos como espectro autístico

⚠️ Profilaxia de Lesão Cervical

Pais e professores devem ser advertidos quanto ao risco de lesão cervical durante a prática esportiva da natação, ginástica, futebol e especificamente cambalhotas. Estes esportes devem ser contraindicados na vigência de sintomas como dor cervical, fraqueza, hipereflexia.

😴 Apneia do Sono

Pais e cuidadores devem estar atentos aos sintomas de apneia do sono: posição anormal no leito, despertar noturno, obstrução nasal, ronco e sonolência diurna. As principais causas são obesidade e hipertrofia de adenóide e amígdala palatina.

🧑 8.3 Cuidado com a Saúde do Adolescente (10 a 19 anos)

O cuidado deve estar focado na manutenção de um estilo de vida saudável, no desenvolvimento da autonomia para as atividades de vida diária, auto-cuidado, socialização, escolaridade e orientação vocacional.

Acompanhamento Necessário:

  • Exames: Hemograma, TSH e hormônios tireoidianos (anual)
  • Obesidade: Glicemia de jejum, triglicerídeos, lipidograma
  • Avaliações: Auditiva (anual) e Visual (bianual)
  • Orientações: Sexualidade e prevenção de gravidez e DSTs

✅ Fertilidade

Sabe-se que as adolescentes com SD são férteis e os do sexo masculino em geral têm redução de fertilidade. A orientação para o desenvolvimento da sexualidade é importante nesta faixa etária.

👨 8.4 Cuidado com a Saúde do Adulto e do Idoso

O cuidado deve estar focado na manutenção de um estilo de vida saudável, no desenvolvimento da autonomia, socialização, inclusão social e econômica. Nesta fase devem ser discutidas com a família as questões de independência e planejamento futuros.

Acompanhamento Necessário:

  • Exames: Hemograma, TSH e hormônios tireoidianos (anual)
  • Avaliações: Auditiva (anual) e Visual (trianual)
  • Ginecológico: Rotina anual para mulheres
  • Urológico: Rotina para homens

⚠️ Alterações de Comportamento

Alterações de comportamento são mais comuns na vida adulta e merecem atenção especial, porque podem significar depressão ou deterioração mental pelo risco aumentado de Alzheimer e envelhecimento precoce.

📊 Quadro 2 - Acompanhamento por Ciclo de Vida (Resumo)

Exames/Orientações Recém-nato Criança (1-10 anos) Adolescente (10-19) Adulto/Idoso
TSH 6 meses e 1 ano Anual Anual Anual
Hemograma 6 meses e 1 ano Anual Anual Anual
Cariótipo 1º ano de vida - - -
Ecocardiograma Sim Se necessário Se necessário Avaliação cardiológica
Visão 6 meses Anual Bianual Trianual
Audição 6 meses Anual Anual Anual
Rx Coluna Cervical - 3 e 10 anos Se necessário Se necessário
Imunização Extra Anti-Pneumocócica Anti-Varicela, Hepatite A - Influenza, Pneumocócica

✅ Checklist de Acompanhamento por Idade

Marque as caixas conforme for completando cada exame/avaliação. Seu progresso será salvo automaticamente.

👶 Lactente (0-2 anos)

🧒 Criança (2-10 anos)

🧑 Adolescente (10-19 anos)

👨 Adulto/Idoso

📊 Progresso

0 de 32 etapas concluídas (0%)

✨ 9. Benefícios Esperados

Espera-se que o cuidado integral com a saúde da pessoa com SD tenha como resultado final a manutenção da sua saúde física e mental, bem como o desenvolvimento da sua autonomia e inclusão social.

Que em última análise se concretize em uma vida plena.

📚 Referências

📞 Contatos Úteis

Ministério da Saúde

Site: www.saude.gov.br

E-mail: [email protected]

Endereço: SAF/Sul, Trecho 2, Edifício Premium, Torre 2, bloco F, térreo, sala 11

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